Poema para pensar: Que existe mais, senão afirmar a multiplicidade do real?

Que existe mais, senão afirmar a multiplicidade do real?
A igual probabilidade dos eventos impossíveis?
A eterna troca de tudo em tudo?
A única realidade absoluta?
Seres se traduzem.
Tudo pode ser metáfora de alguma outra coisa ou de coisa alguma.
Tudo irremediavelmente metamorfose!
Paulo Leminski

Poemas para pensar: O passado é feito de desprezos.

O passado é feito de desprezos. Desprezo à nacionalidade, ao sexo, à faixa etária, à cultura, às crenças e às descrenças, desprezo pela opinião e, mais ainda, pela condição do outro. Espera-se da juventude um comportamento melhor; ela própria se acredita o estágio mais avançado da evolução do homem na face da terra. Mas os jovens se formam e informam através do desprezo. Repetem e agravam o incrível carrossel de ignorância e violência que acompanha a humanidade desde que descobriu que, com o osso de seu inimigo, podia matar os inimigos. Os jovens continuam a repetir a mesma tolice das gerações anteriores, separando o bem do mal, o vermelho do preto, o sim do não. Não percebem que o presente nada mais é que uma sucessão torrencial de passados.
Carlos Heitor Cony

Tradução do artigo espanhol: MARIA DE MEDEIROS: A DIVA além da beleza

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MARIA DE MEDEIROS: A DIVA além da beleza
Agora falar sobre divas do mundo do cinema é uma questão que não corresponde com a realidade de uma série de atrizes que de vez em quando estão nos cinemas graças a grandes investimentos que fluem em campanhas de marketing em curso para convencer o público de que a modelo é uma grande atriz e também é um modelo a seguir. Assim, garante um substituto quando este deixa de trazer benefícios econômicos. A fórmula é simples, não ter medo de uma câmera e, acima de tudo, ser esteticamente agradável.
Pola Neri, Mae West, Jean Harlow, Bette Davis ou Theda Bara eram divas do cinema, por muitas razões, incluindo a beleza de cada uma dessas atrizes, mas isso aos seus corpos e rostos não são limitadas. Tinha um sorriso, um gesto, um tom e uma sensualidade sem explicação que fazia com que fossem admiradas por todos.
A beleza física em filmes é algo que é agora tão prevalente que é difícil imaginar uma protagonista de um filme que não brilha por seu físico. Para ser diva deve ir mais longe.
O povo Português, orgulhosos da sua terra, enquanto os admiradores mais distantes, exaltam sua própria diva, que os representa, conduz o povo de Portugal, em todas as suas obras. Maria de Medeiros nasceu em Lisboa em 1965, com os pais, cujo trabalho é relacionado a diversos ramos da arte, demorou pouco tempo penetra no mundo da criação cultural.
Ainda criança, ela viajou para a Áustria, onde permaneceu por alguns anos até a eclosão da Revolução dos Cravos 25 de abril de 1974 e a ditadura de Antonio de Oliveira Salazar chegou ao fim. Nestes anos, os movimentos migratórios da Península Ibérica à França, Alemanha e Suíça foram bastante comum, este foi o caminho percorrido por Maria de Medeiros e sua família, cujo destino era Paris. Iniciou seus estudos em filosofia na Sorbonne, que ela deixou para estudar teatro e uma licenciatura em uma das escolas mais reconhecidas no país e no mundo, a escola nacional de estudos superiores de artes e teatro.
Ela tem sido ativa desde o início dos anos 80 e tem a seu crédito mais de 50 produções distribuídas em longas-metragens, curtas-metragens e produções televisivas. Sua obra não se limita à interpretação, mas também diretora, produtora e cantora diplomada no Conservatório Nacional de Artes, em Paris.
Versátil e internacional. Ela já trabalhou para grandes diretores de vários países diferentes começando com seu papel em A Divina comédia de Manoel de Oliveira, de Pulp Fiction, de Quentin Tarantino ou ovos de ouro, dirigido pelo falecido José Juan Bigas Luna. Seguramente, esses diretores tinham atrizes em sua agenda com a estética mais impressionante do que a de Maria de Medeiros, mas ela ia ser uma diva, eles sabiam disso. Ela pode falar Português, Espanhol, Inglês ou Francês fluentemente, ela pode até aprender um script em russo com apenas uma semana de espaço para isso. Sua expressão facial é tão clara quanto enigmática, proporcionando uma aura mística para qualquer plano. Devemos acrescentar que também faz música para contribuir para a obra audiovisual se o diretor pensa assim conveniente, de modo que o leque de possibilidades oferecidas são profissionais de beleza que nem aqui nem apenas a única que pode.
Amante de todas as artes, sempre tenta conjuga-las contexto o permitir, daqui em Pássaros Eternos, o seu mais recente álbum, cada música é acompanhada por uma ilustração de outros autores. Neste LP tem canções em diferentes idiomas, e ela gosta de aprender outras línguas para enriquecer seu potencial como atriz.
“Eu não gosto da idéia de um filme homogêneo, eu gosto da diversidade em todos os sentidos”
Maria de Medeiros
Embora reconhece abertamente sua grande admiração e estima para a França, Portugal e ela ama algo que mostra quando tem tempo. Compreende a cultura Portuguesa, apesar de não ter crescido na mesma como a maioria dos Português, sabe que ela conseguiu fazer com que sua vida sem abandonar os fóruns “deles” e assumiu a responsabilidade de “embaixadora portuguesa” sem medo. Para eles, é normal ver Maria de Medeiros nas muitas manifestações nos últimos anos estão acontecendo em Portugal (como no resto do mundo ocidental), devido à crise econômica. Todo mundo está ciente de que os problemas econômicos do artista são mínimos, mas a sua grandeza reside na solidariedade e proximidade com aqueles que são orgulhosos dela. A beleza de Maria de Medeiros está no interior de todas as portuguesas.
“Eu não vejo nenhuma possibilidade de repor a economia vai se as pessoas não têm, apenas para obter dinheiro na máquina econômica.”
Maria de Medeiros
Seu compromisso social não é apenas em entrevistas, está presente em muitas de suas obras, especialmente onde dirige Capitães Abril é um exemplo, onde os acontecimentos da revolução portuguesa que acabaria com a ditadura de Salazar está bem outros projectos em que o protesto é o elemento principal. Riparo é outro exemplo de seu compromisso com o povo, neste caso com o brasileiro. Para fazer com que este filme não só se comprometeu a informar a situação das famílias pobres durante a ditadura (República Federativa do Brasil) na década de 70, mas ela morava com a família no protagonista história.
“A obra de arte e cultura ajuda a ter uma força moral muito importante, pois não temos dinheiro, você não precisa levar-nos que moral.”
Maria de Medeiros
Diversidade, conjunção e compromisso, o verdadeiro significado da cultura como enriquecimento e não como uma fronteira, que é a beleza desta atriz que continuam a encantar os espectadores que procuram crescer socialmente e pessoalmente com um dos ícones da cultura em geral, e português como um povo.
Pedro Possebon
Texto original: http://www.apartemagazine.es/2013/05/divas/

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Poema para pensar: Se Os Tubarões Fossem Homens

Se Os Tubarões Fossem Homens
Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas do mar, para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais.
Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias, cabíveis se por exemplo um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim que não morressem antes do tempo.
Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.
Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nessas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a guela dos tubarões.
Eles aprenderiam, por exemplo a usar a geografia, a fim de encontrar os grandes tubarões, deitados preguiçosamente por aí. aula principal seria naturalmente a formação moral dos peixinhos.
Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos.
Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência.
Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se antes de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista e denunciaria imediatamente aos tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.
Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre sí a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros.
As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que entre eles os peixinhos de outros tubarões existem gigantescas diferenças, eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro.
Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos
Da outra língua silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.
Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, havia belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas guelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nos quais se poderia brincar magnificamente.
Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as guelas dos tubarões.
A música seria tão bela, tão bela que os peixinhos sob seus acordes, a orquestra na frente entrariam em massa para as guelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos .
Também haveria uma religião ali.
Se os tubarões fossem homens, ela ensinaria essa religião e só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida.
Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros.
Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões pois eles mesmos obteriam assim mais constantemente maiores bocados para devorar e os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiro da construção de caixas e assim por diante.
Curto e grosso, só então haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.
Bertold Brecht

Poema para pensar: Nada é impossível de mudar

Nada é impossível de mudar

Nada é impossível de mudar,
Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.

E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar.

Bertolt Brecht

Poema para pensar: Vou-me embora pra Passárgada

Vou-me embora pra Passárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Manuel Bandeira

Poema para pensar: Pneumotórax

Pneumotórax
Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
– Diga trinta e três.
– Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
– Respire.

– O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
– Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
Manuel Bandeira

Poema para pensar: Tabacaria

TABACARIA
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê –
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.
Álvaro de Campos, 15-1-1928