Arquivo da categoria: poesia

Poemas para pensar: As armas e os barões assinalados

As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados,
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;”

Trecho de: Luís Vaz de Camões. “Os Lusíadas.”

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Poemas para pensar: Venham Mais Cinco

Venham Mais Cinco
Venham mais cinco, duma assentada que eu pago já
Do branco ou tinto, se o velho estica eu fico por cá
Se tem má pinta, dá-lhe um apito e põe-no a andar
De espada à cinta, já crê que é rei d’aquém e além-mar
Não me obriguem a vir para a rua
Gritar
Que é já tempo d’ embalar a trouxa
E zarpar
Tiriririri buririririri, Tiriririri paraburibaie, 2X
Tiiiiiiiiiiiiii paraburibaie …
Tiriririri buririririri, Tiriririri paraburibaie, 2X
A gente ajuda, havemos de ser mais
Eu bem sei
Mas há quem queira, deitar abaixo
O que eu levantei
A bucha é dura, mais dura é a razão
Que a sustem só nesta rusga
Não há lugar prós filhos da mãe
Não me obriguem a vir para a rua
Gritar
Que é já tempo d’ embalar a trouxa
E zarpar
Bem me diziam, bem me avisavam
Como era a lei
Na minha terra, quem trepa
No coqueiro é o rei
A bucha é dura, mais dura é a razão
Que a sustem só nesta rusga
Não há lugar prós filhos da mãe
Não me obriguem a vir para a rua
Gritar
Que é já tempo d’ embalar a trouxa
E zarpar
Zeca Afonso

poema para pensar: Arcebispíada

Arcebispíada

Pregais o Cristo de Braga
Fazeis a guerra na rua
Sempre virados prò céu
Sempre virados prà Virgem

A Santa Cruzada manda
Matar o chivo vermelho
Contra a foice e o martelo
Contra a alfabetização

Curai de ganhar agora
Os vossos novos clientes
Além do pide e do bufo
Amigos do usurário
Além do latifundiário
Amigo do Capelão

“Abre Nuncio Vade Retro
Querem vender a nação”

“A medicina é ateia
Não cuida da salvação”
Que o diga o facultativo
Que o diga o cirurgião
Que o digam as criancinhas
“Rezas sim, parteiras não”

Se o Pinochet concordasse
Já em Fátima haveria
Mais de trinta mil vermelhos
A arder de noite e de dia

Caridade, a quanto obrigas
Só trinta mil voluntários
“Cristo reina Cristo vinga”
Nos vossos santos ovários
E também nos lampadários
E também nos trintanários

“Abre Nuncio Vade Retro
Querem vender a nação”

Ó Carnaval da capela
Ó liturgia do altar
Já lá vem Camilo Torres
Com o seu fusil a sangrar

Igreja dos privilégios
Mataste o Cristo a galope
Também Franco, o assassino
Mandou benzer o garrote

Zeca Afonso

Poemas para pensar: O GUARDADOR DE REBANHOS (IX)

O GUARDADOR DE REBANHOS (IX)
Sou um guardador de rebanhos
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto.
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.

Alberto Caeiro

Poemas para pensar: Nós

Nós
Eu… sei que me disseram por aí
E foi pessoa séria quem falou
Você tava mais querendo era me ver passar por aí
Eu… sei que você disse por aí
Que não tava muito bem seu novo amor
Você tava mais querendo era me ver passar por aí
Pois é
Esse samba é pra você, ó, meu amor
Esse samba é pra você
Que me fez sorrir, que me fez chorar
Que me fez sonhar, que me fez feliz
Que me fez amar
Eu… sei que me disseram por aí
E foi pessoa séria quem falou
Você tava mais querendo era me ouvir cantar por aí
Eu… sei que você disse por aí
Que não tava muito bem seu novo amor
Você tava mais querendo era me ver passar por aí
Pois, é
Esse samba é pra você, ó, meu amor
Esse samba é pra você
Que me fez sorrir, que me fez chorar
Que me fez sonhar, que me fez feliz
Que me fez amar
Pois é
Esse samba é pra você, ó, meu amor
Essa samba é pra você
Pra você sorrir, pra você chorar
Pra você sonhar, pra você feliz
Pra você amar!
Tião Carvalho

Poema para pensar: Todas as cartas de amor são Ridículas.

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)
Álvaro de Campos

Poème de penser: Allez Allez Allez

Allez allez allez
À chaque coup de rame
Prends la force dans la taille
Et dans les talons
Allez allez allons
À chaque coup de crosse
Prends l’écorce du colosse
Et du canasson
Allez allez allons
À chaque coup de sabre
Prends la fougue des canailles
Et des moussaillons
Allez allez allons
À chaque coup de cloche
Prends la crasse le cris des mioches
Et des carillons
Allez allez allons
À chaque coup de balle
Prends les confettis du stade
Et celles des champions
Allez allez allons
À chaque coup de pioche
Prends la force c’est fastoche
De ma chanson
Camille

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

Luís Vaz de Camões

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

Luís Vaz de Camões

Poema para pensar: Que existe mais, senão afirmar a multiplicidade do real?

Que existe mais, senão afirmar a multiplicidade do real?
A igual probabilidade dos eventos impossíveis?
A eterna troca de tudo em tudo?
A única realidade absoluta?
Seres se traduzem.
Tudo pode ser metáfora de alguma outra coisa ou de coisa alguma.
Tudo irremediavelmente metamorfose!
Paulo Leminski